PELA FILOSOFIA- Por José Maurício de Carvalho




Ao inserir na prova de Filosofia do ensino médio uma questão sobre música da 
cantora Vaneska Popozuda, o Prof. Antônio Kubitschek, da cidade de Brasília, 
levou a Filosofia para passear no jardim do ridículo. E diga-se logo, este não é 
lugar adequado para esta velha senhora de 2600 anos, ocupada com as questões 
fundamentais da existência do homem e do mundo. E por que não é um bom 
lugar para esta velha senhora? Porque em nosso tempo muitos não a 
compreendem, outros fingem respeitá-la, embora a desprezem. Há, finalmente, 
políticos oportunistas que querem vê-la fora das escolas pelos riscos que 
representa ensinando pensar de forma crítica os problemas da vida pessoal e da 
sociedade. Estes políticos desejam eliminar a Filosofia da Escola para evitar os 
questionamentos dos cidadãos e indiretamente poupar tostões com os quais se 
remunera mal os professores de Filosofia. Argumentam haver finalidade mais 
nobre para o dinheiro público. A mídia adorou divulgar a questão ridícula. 
E quero desde logo esclarecer que não se critica aqui o uso de letras de música 
para provocar reflexão. Isto pode ser feito. Nem se trata de excluir de pronto o 
conteúdo da questão, pois sabemos que se pode falar de um simples copo d' água 
e isto ser Filosofia. Foi o modo de falar. Insisto, não é o tratar das coisas comuns 
da vida que afasta a Filosofia, pois sempre é possível retirar das experiências 
quotidianas um sentido profundo, buscar no rotineiro as origens da certeza 
universal ou caminhar na autoconsciência do ser. É sempre possível perguntar-se 
se não respeitar a fila ou empurrar alguém ao entrar na condução encontra 
justificação universal. Porém, o fenomênico e o banal na reflexão filosófica hão 
de ser interrogados para se abrirem ao amplo e fundamental. Refletir sobre o 
simples não significa que qualquer coisa é válida como Filosofia e isto a mídia 
não ajudará a esclarecer após a lamentável divulgação da prova. A opinião 
pública ficará com o que ouviu da questão infeliz. 
A Filosofia foi levada ao jardim do ridículo também porque o Professor disse 
pretender a polêmica. Conseguiu a polêmica, mas promoveu reflexão filosófica? 
Ajudou a popularização ou a compreensão da Filosofia? Não acredito. Pode 
parecer que o propósito da Filosofia seja criar controvérsia, iniciar debate, 
promover a discussão, mas não é. O debate filosófico tem sentido como 
instrumento, quando se realiza em torno a questão específica, quando todos os 
debatedores estão comprometidos com o propósito de pavimentarem juntos o 
caminho até a verdade. Dito de outro modo, embora a reflexão filosófica seja 
sempre individual ela precisa considerar o argumento de outras reflexões, pois 
ninguém na absoluta solidão de sua consciência encontra a certeza do fundamento. 
Não faz sentido a polêmica pela polêmica, mas faz sentido o 
diálogo que busca a verdade e esclarece os problemas. 
A Filosofia foi levada ao ridículo porque apontar Valeska Popozuda como grande 
pensadora contemporânea sugeriu que a tradição filosófica é uma banalidade. 
Um lugar onde se coloca qualquer um. Como a cantora se apresenta ao público? 
O que a diferencia das outras Valeskas (e não Valeskas)? Qual é sua 
singularidade? O fato de ser Popozuda, isto é, segundo o Aurélio, o possuir 
grandes nádegas ou popa. E tão grande ela tem que não é só uma popa de 
respeito, mas é Popozuda. É assim que ela se identifica, é o que a diferencia das 
outras mulheres e, por extensão, de todo o restante da humanidade. E nada do 
que ela tenha escrito parece significativo no esforço de aprofundar a consciência 
do homem durante mais de dois milênios e meio. A tradição filosófica está bem 
demarcada no espaço da cultura pelo propósito de penetrar no fundamento do 
mundo e da vida. A tradição filosófica é movimento intelectual em torno as suas 
grandes obras e ser grande aqui não é simples. É preciso possuir grande reflexão. 
Embora a Filosofia comporte muitas definições e interpretações, ela é reflexão 
pela qual o homem se pergunta pelo que existe e pela forma como se insere nisto 
que ele chama mundo ou realidade. É atividade séria, mas pode ser leve e 
didaticamente ensinada. 
José Mauricio de Carvalho 
Professor de Filosofia –UFSJ 
Contato: mauricio@ufsj.edu.br 





                 

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