A última dança - Rutiero, Sirleia , Lucas e Aparecida

Maria uma bailarina experiente sai de seu ateliê de dança após mais um dia de aulas. É tarde e o consultório de seu médico já vai fechar. Horas antes, ele ligara com uma voz meio embargada pedindo a Maria que o quanto antes fosse ao seu consultório, para lhe relatar o resultado dos exames. Maria em sua costumeira alegria não percebeu o tom meio sombrio do seu médico, que era também seu amigo de uma longa data.  No caminho ela ia acertando em sua cabeça os últimos detalhes de seu novo recital de dança. Já é noite e seu médico a espera no consultório. Tudo está vazio, ouvem-se apenas os batidos ritmados do salto de Maria no piso. Ela entra na sala na qual o Dr. Emanuel a aguarda, o encontra de costas, olhando atentamente para os exames pela última vez, antes de dar a derradeira notícia. Maria ao sentar-se ainda estava com o pensamento envolvido com o recital, recosta seu casaco na cadeira ao lado - com a delicadeza de sempre - mas quando fita os olhos de Emanuel seu semblante se desfaz, suas mãos agora gelam. O doutor ao assentar entrelaça suas mãos nas de Maria e diz: - Sinto muito, você tem um câncer maligno no seio direito; não tenho mais nenhuma informação por enquanto, mas vamos investigar. Desfeita de sua calma, meio atônita e desnorteada, em um salto Maria se levanta da cadeira pegando seu casaco e sai sem direção. Os corredores do consultório parecem nunca ter fim. Sua corrida que era tímida se torna voraz. Ela consome aqueles corredores com suas pernas tão acostumadas a deslizar nos palcos, sai sem direção, não vê mais nada, a única coisa que sabe é que precisa estar no aconchego de sua casa - lagrimas já rolam em seu rosto.
Chegando em casa - desfeita em lágrimas - sobe as escadas deslizando os dedos no corrimão, com a novidade da primeira vez e a melancolia da última. O casaco fica em cima da cama e ela vai direto para o banho, tenta com a agua lavar também a ala. Já não chora mais, tem apenas aquele sentimento de um fim de enterro, um vazio indescritível. Neste momento, ainda envolvida em seu roupão retira de uma gaveta esquecida no canto do seu quarto uma caixa com fotografias antigas suas, talvez querendo se reencontrar. Em meio às fotografias de sua infância e de seus primeiros anos como bailarina encontra uma fotografia em especial, nela está escrito “Com carinho. Adalberto”. Maria olha atentamente para a fotografia: <<Música. Anos dourados>> 
















Parece que dizes

Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes
Te ligo afobada
E deixo confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor
Me vejo a teu lado
Te amo?
Não lembro
Parece dezembro
De um ano dourado
Parece bolero
Te quero, te quero
Dizer que não quero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais
Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
E desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos, dezembros
Mas quando me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais



Maria recosta em sua cama e adormece. Em meio aos sonhos revive os anos dourados de sua juventude, quando no calor daquele dezembro em sua primeira apresentação como profissional, se viu diante daqueles olhos negros << poema>>




“Seus olhos, tão negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir, estrelas incertas, que as águas dormentes do mar vão ferir; seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, de meiga expressão mais doce que a brisa, — mais doce que a flauta quebrando a solidão. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir, são meigos infantes, gentis, engraçados brincando a sorrir. São meigos infantes, brincando, saltando em jogo infantil, inquietos, travessos; - causando tormento, com beijos nos pagam a dor de um momento, com modo gentil. Seus olhos são negros, tão belos, tão puros, assim é que são; às vezes luzindo, serenos, tranquilos, às vezes vulcão! Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco, tão frouxo brilhar, que a mim parece que o ar lhes falece e os olhos tão meigos, que o pranto umedece, me fazem chorar.[...] Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, de vivo fulgor; seus olhos que exprimem tão doce harmonia, que falam de amores com tanta poesia, com tanto pudor. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, assim é que são; eu amo esses olhos que falam de amores com tanta paixão.”

 Sim, eram os olhos de Adalberto, que a cada passo de dança, a cada rodopio a fitava seguindo-a. O engraçado era que, diante de um teatro cheio de olhos a contemplar a desenvoltura da bela bailarina, apenas um olhar lhe roubava a alma e o suspiro do coração. A Maria forte de hoje não se parecia em nada com aquela jovem moça, animada pelos encantos da vida e da dança, aquela pequena Maria, ainda infante. Em seu sonho sereno, recorda o soar da campainha, assim como  da surpresa de abrir a porta e se deparar com um buque de rosas vermelha que trazia em meio aos botões um gracioso bilhete. O sonho exalava o perfume das rosas e o colorido daquela manha primaveril, nele era realçado cada detalhe, de maneira inimaginável – próprias dos sonhos - até mesmo o palpitar do coração ao ler o bilhete era parecia real. O bilhete era dele do dono daqueles famintos olhos negros e marcava um encontro. E foi naquela  tarde  fresca a beira da lago que Maria se viu envolta nos braços daquele que  se tornaria o homem de sua vida. E no fragor da brisa suave e do cheiro doce das flores se deixou se deixou fotografar eternizado esse momento de tanta plenitude de felicidade.
Em um sobressalto Maria desperta e instintivamente liga para Adalberto que naquelas tantas da madrugada, atende sem nada entender. Mas não consegue retrucar com suas costumeiras rabugices, sua voz parecia ser a da menina apaixonante que cativou o seu olhar e o seu coração naquele dezembro. Desperta de vez, Maria se sente idiota diante da situação e desconcertada desliga o telefone. Como um filme em sua cabeça relembra as palavras de Emanuel, mas não pode fazer nada a não ser esperar. Recolhe as fotos espalhadas por sobre a cama, mas a última ela não tem coragem de guardar, sensibilizada pelos sonhos e pelos últimos acontecimentos decide por colocar a fotografia em uma moldura onde possa sempre reviver aqueles tempos dourados de amor.
Ao alvorecer Maria já estava no estúdio e logo nos primeiros passos e rodopios já não pensava mais nos exames nem mesmo no telefonema vergonhoso da madrugada. O dia parecia ter perdido o compasso das horas, sem perceber Maria estava sozinha no estúdio organizando as coisas para que pudesse ir para sua casa e com suas delicadas mãos colocava cada coisa em seu lugar. Estava no fundo de seu estúdio quando ouviu a sineta da porta soar e imediatamente o barulho de pisadas firmes no assoalho de dança, mal deu tempo de se virar e já estava envolvida em braços firmes que entrelaçavam sua cintura, em um profundo suspiro fitou aqueles negros olhos de outrora. << música: Valsinha>>





Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz

O vento assoviava lá fora e os galhos roçavam na janela do quarto - naquela manhã muita coisa parecia diferente - a luz do sol já invadia o quarto e começava a ofuscar os olhos ainda cerrados, mas que iam lentamente sendo abertos. No calor dos acontecimentos ela tinha se esquecido da doença e preferiu não pensar mais no que poderia acontecer com ela dali em diante, só queria aproveitar aquele que poderia ser seus últimos momentos. Já desperta totalmente, se levantou olhou o relógio e se assustou, já era tarde e aquele era o dia da estreia de seu novo espetáculo. Depois de trocar algumas palavras com Adalberto - que ainda estava na cama - e lhe dizer sobre a estreia desceu correndo as escadas e seguiu para seu estúdio.
Maria nem viu aquele dia passar e quando se deu conta já estava na hora do espetáculo. Acertando os últimos preparativos, minutos antes da apresentação, saiu de seu camarim e correu rapidamente ao palco, entreabriu a grande cortina vermelha, suas mãos suavam de nervosismo, sentia-se como da primeira vez que se apresentou, seus olhos espreitavam por aquela brecha e pareciam procurar por alguém. Seus olhos passaram por seu médico Emanuel e demoraram-se em um sujeito elegante, sim aquele era justamente Adalberto! Com o olhar ainda fixo acompanhou-o até a sua poltrona quando de repente soou o primeiro sinal para o espetáculo. Já refeita do êxtase de ver seu amado novamente em sua plateia tomou sua posição para a apresentação.
A grande cortina de veludo vermelho enfim se abriu, na plateia Adalberto mal podia se aguentar de tão ansioso que estava em pode ver sua amada bailar novamente. Ele não tivera tempo de relatar a sua amada o que tinha acontecido desde que se separaram, por este motivo não sabia se essa seria a última vez que veria sua querida bailando encantadoramente. Seus olhos brilhavam e ele a olhava incisivamente. <<música: Bandolins>>



Como fosse um par que
Nessa valsa triste
Se desenvolvesse
Ao som dos bandolins
E como não,
E por que não dizer
Que o mundo respirava mais
Se ela apertava assim?
Seu colo como
Se não fosse um tempo
Em que já fosse impróprio
Se dançar assim
Ela teimou e enfrentou
O mundo
Se rodopiando ao som
Dos bandolins
Como fosse um lar
Seu corpo à valsa triste
Iluminava e à noite
Caminhava assim
E como um par
O vento e a madrugada
Iluminavam à fada
Do meu botequim
Valsando como valsa
Uma criança
Que entra na roda
A noite tá no fim
Ela valsando
Só na madrugada
Se julgando amada
Ao som dos bandolins...


                As cortinas se fecharam, e ele mal podia conter a emoção. Foi ao camarim e segurou-a pela cintura, como sempre fazia, mas o semblante de Maria estava pálido, mas ela tentava esconder a dor. De tão emocionado que estava Adalberto não percebeu o semblante desfeito de Maria. Naquele instante ele sabia que a amava de mais e que seria capaz de fazer de tudo para vê-la feliz. Os dois foram para casa,  Maria por estar extremamente cansada logo adormeceu, mas Adalberto não. Ele ruminava em seu pensamento quem poderia ser aquele sujeito distinto que estava no camarim de Maria, que saiu um pouco antes dele chegar. Cada vez que Adalberto lembrava daquela cena seus olhos se enfureciam ao mesmo tempo em que enchiam-se de lágrimas, pois sabia que não restava muito tempo para ele. Decidido a fazer com que Maria fosse feliz tomou a sua decisão naquela mesma hora, já era quase o alvorecer. A noite soprava um vento gélido lá fora, ele levantou-se trocou a roupa, tentava não fazer barulho, se reclinou sobre Maria e deu um beijo nela. Desceu as escadas sorrateiramente, cabisbaixo e silencioso seguiu para a rua. Pensava já não ter mais motivos, e além do mais seria o melhor para Maria, pois ela teria a chance de ser feliz, com ele não daria mais tempo... Adalberto continuava a caminhar. Refletia novamente sobre a cena do camarim e justificava a si mesmo que com ele Maria não poderia ser feliz já que ele não tinha mais tempo... Adalberto continuava a caminhar. Pensava novamente que ela só seria feliz assim, longe dele... Adalberto continuava a caminhar. Ele parou, então, diante de um dos canteiros de obras que ele estava trabalhando, já havia amanhecido. Ele revivia o seu beijo em Maria. <<música: Construção>>




Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague





Maria num espanto acordou e foi atender ao telefone, vestiu com rapidez - apesar de meio sonolenta que estava - o seu roupão e reparou que Adalberto não estava na cama. Pensando que ele estava na cozinha desceu rapidamente as escadas e foi atender o telefone. Do outro lado da linha era o seu médico Dr. Emanuel, que já tinha em mãos o resultado dos novos exames. Ela quase não acreditou na notícia que milagrosamente o câncer havia retrocedido e que com alguns tratamentos ela estaria curada. Mal se contendo de alegria foi ao encontro de Adalberto pensando que estava na cozinha. Não o encontrando lá, procurou por todos os lugares da casa, mas não o encontrou. Como era sábado teve que passar em seu estúdio, e já começava a ficar preocupada com Adalberto e onde ele estaria. No caminho para o estúdio teve que parar,<<Bachianas brasileiras nº 5>> o trânsito estava impedido perto de uma construção. Ela como que instintivamente correu para ver o que estava acontecendo, quanto mais perto chegava do aglomerado de pessoas que se formava mais suas pernas iam ficando trêmulas, seu coração palpitava cada vez mais forte, abrindo passagem no meio da multidão se inclinou para o moribundo que jazia na rua, e qual não foi a surpresa quando se inclinando mais um pouco e com os olhos já cheios das mais cândidas lágrimas constatou, o defunto era Adalberto que ali jazia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Estado de Poesia

PS: de quem te ama

P.S.:Eu estou pairando sobre ti, breve algo irá mudar!